Crítica: A Casa Que Jack Construiu (2018)

a casa que jack construiu

Persona Non Grata, Lars Von Trier retorna em A Casa que Jack Construiu , zombando de suas polêmicas numa crítica a cultura da indiferença.

Lançamento: 01 de novembro de 2018
Diretor: Lars von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman

Sinopse:

Em síntese, durante um encontro casual na estrada, Jack mata uma mulher. Esse evento provoca nele um prazer inesperado e que o faz assassinar dezenas de pessoas ao longo de 12 anos. Devido ao descaso das autoridades e à indiferença dos habitantes locais, Jack não encontra dificuldade em planejar seus crimes, executá-los ao olhar de todos e guardar os cadáveres num grande frigorífico. Posteriormente,  ele compartilha os seus casos mais marcantes com o sábio Virgílio, em uma jornada rumo ao inferno.

O novo filme de Lars Von Trier é o exemplo clássico daqueles ‘ame ou odeie’. Não há meio termo aqui, para os fãs do trabalho do polêmico diretor, aqui se encontra mais uma obra de arte sócio questionadora. Já para aqueles que não gostam, passarão a odiá-lo ainda mais.

Destaque da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tem causado revoltas e reações calorosas desde o seu lançamento no, então Festival De Canne, em maio deste ano. O desconforto causado no público fez com que quase 100 pessoas se retirassem da sessão enojadas com as quase 3h de “pura tortura gratuita”.

No longa, acompanhamos o protagonista Jack (Matt Dillon), que ao longo de 12 anos relata seus maiores feitos na vida de homicida, por volta de 60, mas dando foco em apenas 5 deles. A estrutura narrativa lembra muito seu último grande trabalho, Ninfomaníaca (2013), em que a maior parte, se desenrola como um flashback nos conduzindo na história através de uma conversa.

A Casa que Jack Construiu é o retrato investigativo da origem, desenvolvimento e decadência de um serial killer nos anos 70. Dono de um gigantesco freezer cheio de pizzas não consumidas, o engenheiro paralelamente deseja construir a própria casa que é citada no título. Entretanto, assim como o ciclo de mortes nunca é concluído, a casa também não se termina. O elemento “casa” aqui é trabalhado de forma literal e metafórico onde ao nunca terminar seu projeto, jamais poderá construir qualquer tipo de empatia.

O filme é também uma literal descida ao inferno. Descobrimos os “5 incidentes”, no qual Jack se refere aos assassinatos, na perspectiva de Virgil ou Virgílio (Bruno Ganz), fazendo uma alusão ao personagem de mesmo nome na obra italiana “Divina Comedia” de Dante Alighieri.

As mortes começam quase por acidente, e depois se repetem como um vício incontrolável. Jack ataca principalmente mulheres e, como todo machista, acredita que elas são culpadas pelos atos dele. Uma das mulheres é atacada por reclamar demais, a outra, por ser ignorante, e uma terceira, por sua ingenuidade. Por traz disso tudo, há uma discussão levantada tão pertinente quanto as mortes graficamente detalhadas.

A crítica é em torno da falta de empatia que a sociedade tem com o próximo. Isso se dá por conta da ausência de qualquer apresentação que construa ou nos faça sentir empatia pelas vítimas. O próprio Jack tem-se pouco conhecimento do que o motiva ou o que causou tal comportamento tão frio e cruel.

Jack faz o possível para ser pego, mas a sociedade está preocupada demais com o próprio umbigo. Ele não é um serial killer convencional, não tem raiva das suas vítimas. Até mesmo a presença do transtorno obsessivo compulsivo por limpeza, que é um certo ‘alivio cômico’, o ausenta do estereótipo assassino.

Ele está punindo as pessoas por suas falhas e as transformando em obras de arte. Pois para ele, acredita ser ajudado por Deus, que lhe permite “escapar” dos crimes com impressionante facilidade. Os vizinhos não se importam mais uns com os outros, as famílias se distanciaram, a polícia não tem real interesse em desvendar casos. Em tese, Indiferença.

Retornando a Canne após sete anos por ter sido banido por suas piadas insensatas sobre ser um simpatizante nazista, Lars retorna zombando de todas as polêmicas em que já esteve envolvido. O famoso “shade”. Ao longo de muitos anos ele foi alvo de diversas acusações de assédio contra mulheres e pela produção. Bjork, estrela de seu filme “Dançando No Escuro” (2000), inclusive, detalhou no ano passado em meio ao fervor do movimento #Meetoo, episódios no qual teria sido assediada.

Além disso, Lars Von Trier através de Jack, faz inúmeras citações a si mesmo no filme, incluindo trechos de quase todos os seus filmes a anteriores. Ele ousa repetir a “piada” de que “compreende Hitler”, em que Jack fala do papel deste como um ícone histórico.

O personagem, inclusive, é usado muito nesses momentos de alfinetadas, o que deixa ainda mais claro a relação dos dois. Jack segura cartazes para a câmera com as escritas “Egoísta”, “Narcisista”, “Machista”. É impossível desvincular o filme e até mesmo Jack de Lars Von Trier. É quase que um autorretrato.

Numa frase emblemática, Jack fala para Virgil “Não olhe para causa, olhe para a obra”, ou seja, o que importa é a obra e não o criador. Em outras palavras, não o levar muito a sério e sim a problemática em que sua obra levanta.

No entanto sua pontual escolha em colocar as minorias em posições de inferioridade é algo a ser discutido e um tanto contraditório. Por mais bem-intencionado que ele tenha sido em questionar a cultura da indiferença, isso pode ser rapidamente substituído e colocado em segundo plano pelo único e, talvez, principal foco do filme: o choque.

Galeria: 

Trailer:

Filmmaker, atual residente na Shondalandia, cinéfilo em ascensão e virginiano por natureza metido a critico.

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