Crítica: A Favorita (2019)

A Favorita

A Favorita é uma afiada trama sobre duas mulheres que disputam o amor de sua Rainha, apenas para exercer o amor sobre elas mesmas. Um estudo sobre ganância, cobiça e triunfo que não mede esforços.

Lançamento: 24 de Janeiro de 2019
Direção: Yorgos Lanthimos
Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone

Sinopse:

Século XVIII. Numa Inglaterra em guerra com a França, a histérica e debilitada Rainha Anne (Colman) tem como braço direito, conselheira e amante a Duquesa Sarah (Weisz), que exerce influência na corte em seu posto privilegiado. Mas quando a nova empregada Abigail (Stone) cai nas graças da rainha, o favoritismo da Duquesa é ameaçado.

Espetacular! O cinema cru do diretor grego Yorgos vem se destacando nos últimos anos por sua originalidade, frieza e capacidade de impactar e gerar repulsa no espectador. É daqueles filmes que dividem opiniões do público comum, mas que enchem os olhos de cinéfilos mais entusiasmados, como os prévios O Lagosta (2015) e O Sacrífico do Cervo Sagrado (2017).

Talvez A Favorita seja o melhor trabalho de Lanthimos até agora, mesmo ele assinando apenas a direção – o roteiro é da historiadora Deborah Davis e de Tony McNamara. Yorgos tem total segurança aqui, num filme divido em capítulos e com ritmo confortável, momentos de tensão certeiros e cortes rápidos, como se quisesse ir direto ao assunto: o embate implacável entre as protagonistas da trama.

Vale destacar o visual do filme como um todo: planos abertos exibindo os cenários ridiculamente detalhados (típico de drama épico), figurinos extravagantes com vestidos, perucas e cores lindas. Os castelos, corredores e campos preenchem a tela com muita beleza, um verdadeiro colírio nesse sentido.

E é mesmo a união do roteiro inteligente, direção cuidadosa e um elenco impecável que tornam A FAVORITA um dos melhores filmes do ano passado e talvez dos mais brilhantes da década. Sem exagero: é desses que vai envelhecer como um clássico, um marco pro cinema inglês e do mundo.

Sobre o elenco principal, temos aqui um trio protagonista tão perfeito que é difícil decidir qual das três é sua favorita (será que vem daí o nome do filme?).

Rachel Weisz entrega uma atuação madura, de uma personagem complexa e desafiadora – Sarah é impassível: uma estrategista fiel e inteligente, disposta a levar a guerra à França e defender seu posto enquanto porta-voz da rainha, numa corte cheia de homens que discordam dela e tentam superar sua autoridade para ter com a monarca.

Emma Stone tem em mãos uma das personagens mais divertidas do ano, uma jovem com um passado doloroso, que usa da lábia, instinto e facetas diversas para galgar uma boa posição ao lado da rainha. É a persona de maior destaque no filme, que enxerga as oportunidades com sagacidade, e orquestra seus – quase sempre – bem sucedidos planos de sedução e poder. Stone já possui um Oscar, por LA LA LAND (2016), mas é em A FAVORITA que o espectador vai encontrar sua maior atuação na carreira.

E é de Olivia Colman, premiada atriz de televisão – confirmada no papel de Isabel II em The Crown – a tarefa de viver a Rainha, o objeto central da trama, cobiçada por todos os lados – seja por interesse amoroso ou político. Anne é uma mulher traumatizada (a história dos coelhos é um momento grandioso no filme), sensível e acamada. Sofre de gota, é insegura, covarde e temperamental. Passa o filme aos berros e gemidos. Mas não pode ser tirada como idiota: ela tem toda noção de sua posição e gosta de ser desejada.

E é com essas três personalidades que A Favorita vai fazer o espectador levantar antes da hora e abandonar a projeção – isso acontece, não é incomum, – ou deixar na mente o registro de um filme inquietante, que instiga e emociona de muitas maneiras (não é um filme pra chorar, passa longe disso, mas o autor aqui confessa que derramou algumas lágrimas, apenas de ter a honra de assistir um filme dessa qualidade em tela grande).

Garanta seu ingresso e vá testemunhar o surgimento de A Favorita, recordista no Oscar 2019 ao lado de Roma (de Cuarón) com 10 indicações, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro, e com todas as três indicadas nas categorias de atuação (principal e coadjuvante).

Cinema como tem de ser feito, de forma que é até injusto comparar com os outros concorrentes – embora isso não queira dizer que vai se sagrar o grande campeão da noite, a Academia tem seus devaneios.

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