Crítica: A Má Educação (2003)

Uma profusão de histórias envolventes, sensuais, sexuais, comportamentais, relacionamentos pessoais ou não, tudo isso colocado em tela, sem pudores, sem medo, no melhor estilo do diretor mundialmente adorado.

Lançamento: 17 de setembro de 2004
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Gael García Bernal, Fele Martínez, Javier Cámara

Sinopse:

Madri, 1980. Enrique Goded (Fele Martínez) é um cineasta que passa por um bloqueio criativo e está tendo problemas em elaborar um novo projeto. É quando se aproxima dele um ator que procura trabalho, se identificando como Ignacio Rodriguez (Gael García Bernal), que foi o amigo mais íntimo de Enrique e também o primeiro amor da sua vida, quando ainda eram garotos e estudavam no mesmo colégio. Goded recebe do antigo amigo um roteiro entitulado “A Visita”, que parcialmente foi elaborado com experiências de vida que ambos tiveram. Goded lê o roteiro com profundo interesse. Este relata as fortes tendências de pedofilia que tinha um professor de literatura deles, o padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), que vendo Ignacio e Enrique em atitude suspeita diz que vai expulsar Enrique. Ignacio, sabendo que Manolo era apaixonado por ele, diz que fará qualquer coisa se ele não expulsar Enrique. Então Manolo promete e molesta Ignacio, mas não cumpre a promessa e expulsa Enrique. Goded decide usar a história como base do seu próximo filme e, por causa de um isqueiro, vai até a casa de Ignacio e constata uma verdade surpreendente.

Sabemos que Almodóvar amadurece a cada filme, mas que nos últimos anos ele vem fazendo concessões que o tornam mais direcionado ao grande público – eis o maior sucesso de Fale Com Ela – que o deixavam cada vez mais longe de seus primeiros trabalhos, ainda mais do estrondoso Mulheres à Beira De Um Ataque de Nervos, que ganhou o coração dos fãs da sétima arte, mas, Má Educação pode desapontar muitos fãs do diretor, já que marca o reencontro do cineasta espanhol com o espírito rebelde de A Lei Do Desejo, no sentido literal de mergulhar nos próprios fantasmas, sem dar a menor bola para as expectativas do público e da crítica especializada.

É interessante deixar claro que o diretor trabalhou durante DEZ ANOS no roteiro de Má Educação, onde parece ser uma verdadeira obsessão. Em sua época de lançamento, o filme foi elogiado e criticado, deixando os espectadores entre a cruz e a espada, sem saber ao certo onde opinar. Aqui, o diretor economiza no humor como tempero de um melodrama e nas referências à cultura pop, onde ele deixa claro uma espécie de autobiografia da alma, que mesmo negando os episódios de sua vida, fica notável o grande aproveitamento na história.

O filme obviamente é muito mais direcionado ao público adulto e intimista. Ele toca em questões que vão muito além da crítica à hipocrisia da igreja – aqui tratada apenas da nação- onde ajudou a moldar a identidade dos protagonistas da história, “mal” educados porque, os adultos encontram um mundo com valores bem diferentes do que aprenderam no colégio católico, onde o medo e a culpa ficam associados. Não se trata sobre padres pervertidos e repressores, mas sim sobre um questionamento sobre os laços que prendem os homens ao seu passado, sobre o mundo como os nossos desejos e papéis sociais que assumimos são determinados – ou não – por afeição psicológica ligada a nossa experiência de formação, ou seja, o espectador se identifica com diversos momentos do filme, mas a crítica pela religião católica é notória e brutal. O próprio diretor negou ter feito um filme anticlerical, e que sua atração quase fetichista por elementos católicos é evidente: Santos e Virgens em suas imagens que povoam quase todos os seus filmes.

O elenco é mais do que grandioso, atuações impecáveis e os holofotes ficam direcionados pela atuação convincente, corajosa e brutal de Gael García Bernal, onde ele brinca entre realidade e representação, com a fragilidade das aparências, usando o sexo como poder e a busca de identidade em um mundo repleto de transformações e que em seu desfecho final, entrega a vida como arte. Arrasador, é como podemos definir a atuação do grande Gael, que claro, a seu lado teve outra atuação simplesmente impecável e digna de aplausos.

Aparentemente um pouco confuso devido as misturas de situações que acabam por confundir o espectador. Mas como todo filme do Almodóvar, que tem como característica de mostrar a verdade nua e crua, sem pudores e medo de exagero, ele deixa claro aquela velha mensagem que todas as pessoas por menos que pareçam tem seu lado obscuro.

A fotografia dispensa comentários, é a marca registrada do diretor. Ele usa e abusa de cenários históricos, cenários muito bem utilizados e explorados, com uma realidade fatal, ainda mais por se passar nos anos 80, a quem viveu na época sabe muito bem do que o drama trata. Não é o melhor filme do diretor espanhol, mas se torna marcante e grandioso, ainda mais para os iniciantes em sua obra.

Por fim devemos dizer que A Má Educação é uma entrega grandiosa, que prende o espectador, e mesmo que possua pecados eles são perdoados, porque tudo se torna muito bem explicado e bem arramado, onde apenas a marca do diretor fica registrada: Vida ou Morte, o que é melhor?Merecedor de 5 baldes de pipocas

5 pipocas

Galeria:

Trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=UoRbZ6Pcoww

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