Crítica: A Moça do Calendário (2018)

A moça do calendário

A Moça do Calendário resgata o cinema marginal, colocando em pauta as discussões e problemas sociais que vivenciamos na atualidade

Lançamento: 27 de setembro de 2018
Direção: Helena Ignêz

Elenco: Andre Guerreiro LopesDjin SganzerlaMario Bortolotto

Sinopse:

Sem emprego fixo, o quarentão Inácio (André Guerreiro Lopes) trabalha como dublê de dançarino à noite e mecânico durante o dia. Quando não está nas pistas ou operando veículos, seus pensamentos galvanizam para um relacionamento platônico para a bela garota que estampa o calendário da oficina.

Dirigido por Helena Ignez, falar de Moça do Calendário sem citar a importância do cinema marginal para esta obra é a mesma coisa que ignorar a existência de uma juventude com tanto fôlego revolucionário  quanto naquela época.

Originalmente escrito e roteirizado  como um curta metragem por Rogério Sganzerla na década de 1980, o longa só pôde ganhar vida nas mãos da atriz e atualmente diretora, Helena Ignez, na qual, foram casados. Ela que sempre foi conhecida por seus trabalhos como atriz, um ícone do segmento marginal para o cinema brasileiro, vislumbrou-se a tomar mais esse rumo em sua vasta carreira assumindo alguns projetos inacabados do marido logo após sua morte em 2004.

O interessante é dizer que o foco não é da moça do calendário, que é vivida pela atriz Djin Sganzerla e sim a válvula de escape, a ruptura com a realidade  proveniente dos sonhos de Inácio (André Guerreiro Lopes), 40 anos, ex gari, casado e sem emprego fixo, trabalha como dublê de dançarino e mecânico na oficina Barato da Pesada.

O local do trabalho é curiosamente retratado em preto e branco tendo como único elemento colorido a foto do calendário, que pode ser interpretada como o refúgio daquela realidade politica desesperançosa que Inácio se encontrava. Essa metalinguagem, muito se assemelha a situação dos brasileiros pós impeachment: receoso e sonhador com um país melhor.

Helena brinca com as concepções entre realidade e sonho, introduzindo o mapeamento e discussão de várias lutas contemporâneas como o racismo, machismo, reforma agrária, MST, politicas conservadoras, tendo espaço até para exercitar a discussão sobre a depressão causada pela falta de motivação, um dos maiores causadores de morte na sociedade atual. Resume muito bem esse contexto com a citação “O Brasil é sério, mas é puro surrealismo”.

A Moça do calendário é um filme que passou por algumas adaptações em seu roteiro, muitas delas inclusive feitas pela própria Helena para que houvesse uma adequação de tempo e espaço social. Vale mencionar que embora os filmes do cinema marginal, em sua maioria, tinham um teor sexual e violento (que seguiam a chamada estética do lixo) , a luta, e a discussão sobre os problemas em sociedade estão mais presentes do que nunca em nossas vidas onde vida e ficção se misturam.

Rompendo com o formato narrativo mais convencional A Moça do Calendário é transgressor não só na tua mensagem atemporal de que nunca devemos deixar de sonhar e almejar por uma realidade justa para todos, mas por fazer o leve resgate desse segmento que tanto revolucionou a história do cinema e impulsionou tantos outros movimentos que veio seguido dele.

A Moça do Calendário está desde o ano passado dentro dos principais circuitos de cinema, como o de São Paulo e o de Brasília, e sua grande estreia nos cinemas brasileiros acontece dia 27 de setembro.

Galeria:

Trailer:

Filmmaker, atual residente na Shondalandia, cinéfilo em ascensão e virginiano por natureza metido a critico.

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