Crítica: A Noite Devorou o Mundo (2018)

A Noite Devorou o Mundo
A Noite Devorou o Mundo,mas também devorou os clássicos zumbis ,a empolgação, a tensão e o medo, mas conseguiu provar que a solidão moderna é o hype do momento…
Lançamento 5 de julho de 2018
Direção: Dominique Rocher

Elenco: Anders Danielsen LieGolshifteh FarahaniDenis Lavant

Sinopse:

Após um noite de festa com muita bebida, Sam (Anders Danielsen Lie) acorda completamente sozinho em seu apartamento. Ainda confuso ele descobre um terrível acontecimento: a cidade de Paris está tomada por zumbis famintos. Rapidamente ele começa a proteger o prédio em que vive e elabora estratégias para conseguir manter-se vivo em meio a catástrofe. No entanto, ele ainda não tem certeza se é o único sobrevivente neste cenário hostil.

Filmes e séries de zumbis sempre chamaram a atenção do público, principalmente os que prometem grandes momentos de tensão, sangue e mortes, porém, A Noite Devorou O Mundo não apresenta (quase) nada disso, mas sim uma metáfora mais do que interessante: zumbis e os conflitos sociais.

A história nos mostra Sam, um jovem que decide ir ao apartamento da ex-namorada e pegar alguns pertences que havia esquecido, mas, que decide se isolar no escritório e acaba pegando no sono. Quando acorda, percebe que o mundo já não é mais o mesmo, encontra o apartamento revirado, cheio de sangue e completamente destruído.

O subgênero sempre trabalhou muito bem quanto a mensagem explícita de que o maior perigo não são os “mortos-vivos”, mas sim, os próprios humanos – já que são capazes de tudo para se manter vivo, passando por cima de quem mais ama. O filme francês explora muito bem essa temática, se aprofunda na rotina de Sam e prova que a sua solidão pode ser sua salvação ou seu fim.

Baseado no livro de Pit Agarmen, o diretor estreante Dominique Rocher procura dar prioridade muito mais ao isolamento do protagonista do que ao horror que geralmente os filmes da temática apresentam, mas, cabe somente ao espectador decidir se isso é um ponto forte e inovador, ou é algo que faz beirar um completo fracasso.

Serve de alerta dizer para os fãs do terror que buscam um filme repleto de mortes, sangue, gritaria, zumbis correndo atrás de pessoas que buscam sobrevivência, deixarem este filme de lado. Simplesmente não o vejam. Aqui a história roda de maneira lenta e tediosa (causada propositalmente) para mostrar que a fortaleza que Sam criou, se tornou uma zona de conforto, ou seja, ele construiu sua proteção dos zumbis, mas esqueceu de construir algo que o protegesse do tédio, da solidão e da morte psicológica, e isso é provado a cada momento que o personagem tenta quebrar o silêncio dentro do prédio.

Em um determinado momento, Sam explica “estar morto é o novo normal. Eu que não sou normal”, e ao interpretar essa frase, o espectador consegue entender que no atual momento em que vivemos não estar por dentro do que se diz “popular” é estar morto. Criando quase que um monólogo dentro do filme, Sam tem seu “zumbi de estimação” trancado dentro de um elevador, onde ele cria conversas unilaterais. Ali, com esse ser morto, mas que aperta sua mão e interage com sua solidão, ele tem a oportunidade de desabafar tudo o que pensa sobre sua vida e de quem o cercava.

Porém, se existe um belo trabalho filosófico e metafórico por trás do filme, não podemos deixar de dizer que ele consegue frustrar muito mais do que despertar interesse. A direção apostou em algo “diferente” do que é normal, fato, mas isso não agrada e não desperta a empolgação do espectador.

O protagonista Anders Danielsen Lie faz um excelente trabalho com poucas palavras, mas é necessário mais de 1h de projeção para que ele consiga demonstrar qualquer tipo de sentimento ou expressão (seja ela facial ou psicológica), o que é uma pena. Anders não coloca em prática o medo do que o cerca fora do prédio, não demonstra o medo da solidão e não consegue ganhar a empatia do espectador – que por diversos momentos pede que ele morra e que alguém apareça para salvar e entregar cenas mais empolgantes.

Não fica claro que a atuação de Anders é rasa ou é proposital para o filme, mas fica claro que, mesmo trabalhando com outra pessoa ao seu lado, ele continua sendo inexpressivo e sem muito aprofundamento em sua personagem.

A Noite Devorou O Mundo não apresenta uma história de início, meio e fim, ou seja, temos o início de uma epidemia de zumbis com um protagonista que tenta sobreviver, porém, não sabemos absolutamente nada sobre como e quando começou, e nem sobre o personagem que não possui nenhum vínculo externo com quem quer que seja. Em pleno século XXI, é difícil acreditar que uma pessoa não tenha acesso a internet ou algum meio de comunicação para tentar falar com o mundo externo – isso se prova mesmo nos filmes da década de 80 e 90.

Com um roteiro lento, sem muito aprofundamento e com um personagem pouco carismático, o gênero do terror é deixado de lado e passamos a assistir um filme que trabalha muito bem no lado psicológico do drama existencial e da atual sociedade.

Sem cenas empolgantes – a não ser quando ele decide tocar bateria ou salvar um gato no meio da rua -, o filme beira em uma grande divisão de opinião: Excelente ou um completo fracasso.

Por fim, A Noite Devorou o Mundo prova que não é um filme voltado para o grande público que busca cenas empolgantes de ação, mortes, sangues, reviravoltas e personagens carismáticos – ou caricatas, mas sim, um filme voltado muito mais aos fãs do famoso “cult” e dos que buscam respostas para os atuais problemas sociais. Funciona muito bem enquanto drama, mas falha com a sua venda de “terror”.

Galeria:

Trailer:

Editor-Chefe do Clube Das Pipocas. Beth? Eu também sou a Beth!. Paulista, virginiano, pós graduado em Memes da Vida, ácido, metido a crítico de cinema, apaixonado pela sétima arte e amante do café.

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