Crítica: Cinderela (1950)

 uma janela no tempo, mas uma que ainda dá para se identificar…

Lançamento: 22 de Maio de 1950 (Brasil)

Direção: Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson

Sinopse:

Cinderela é uma jovem moça que vem de uma família nobre, porém com a morte de sua mãe, seu pai acredita que se casando de novo ele poderá dar a sua filha de volta a figura de uma mãe. Ele então se casa com a senhorita Tremaine, e por ela já possuir duas filhas da idade de Cinderela ele acredita que ela será a mãe perfeita. Porém o pai morre misteriosamente e com isso, a verdadeira face de Tremaine é revelada, uma mulher cruel, fria e perversa e que acaba escravizando Cinderela em sai própria casa.

Cinderela é um dos maiores clássicos da Disney, provavelmente a primeira princesa que é lembrada quando se trata de pensar na linha como um todo. Mas ela também é sinônimo de desempoderamento hoje em dia, muitos desgostam-na por optar uma aproximação mais passiva ao lidar com suas dificuldades. E por mais que essas críticas sejam validas, muitas vezes elas parecem sacrificar as circunstancias que o personagem se encontra.

Este foi o primeiro file da Disney pós segunda guerra, quando a Disney mais precisava de uma salvação, assim como a pequena sereia, Cinderela foi a moça que deu luz a um renascimento de uma década de sucessos para o estúdio, e assim como a Ariel, ela hoje em dia também é olhada com olhos ruins em termos de representatividade feminina.

O filme segue o formato pré-estabelecido de Branca de Neve, mas elabora em algo mais realista e, em tempos, mais sério e sinistro. A personagem principal não mais tão alegre e feliz mesmo estando sendo escravizada em seu próprio lar, ela reclama e conscientemente tenta manter sua cabeça erguida e não permite que isso infrinja a sua esperança e sua habilidade de sonhar com dias melhores. Ela ensina isso para todos os seus amigos animais, com que encontrou uma família e carinho e deixa bem claro a sua insatisfação.

Ela sonha bastante com um futuro melhor, ela não especifica o que ela quer e muitos acham que é um homem, pois suas outras duas companheiras de monopólio Disney, Branca e Aurora, querem isso, mas quando o príncipe a vê no baile ela não está olhando para ele, ela está maravilhada com o local, e no fim, quando eles quase se beijam e ela tem que fugir, ela diz “que precisa encontrar o príncipe” claramente sem saber que o rapaz com quem dançou a noite toda era a própria realeza, ela queria ver o mundo e não o homem, e isso muitas pessoas falham em perceber por puro preconceito.

Sua madrasta, Tremaine, é uma das vilões mais sombrias que a Disney já teve, ela não tem poderes mágicos, ela não se transforma em uma bruxa e nem em um dragão, ela só tem poder sobre uma pessoa e é tudo o que precisa, ela usa isso para satisfazer todos os seus desejos doentios, é apenas cruel por ser cruel, não se importa com os sentimentos de Cinderela e o fato de ela estar sofrendo lhe alimenta, e convenhamos que todos conhecemos pessoas assim.

Uma das cenas mais marcantes do filme é o primeiro dialogo entre Cinderela e Tremaine no quarto, como a madrasta ordena que Cinderela faça serviços domésticos que ela já havia realizado e Cinderela até tenta argumentar, mas com um corte de Tremaine e ela volta a ficar quieta. Cindy tem medo, ela está traumatizada por ter crescido a mercê desta mulher, ela sabe que sua madrasta pode fazer alguma coisa, pois é cruel.

As irmãs são alivio cômico no filme, mas também são parte integral da trama dramática. A comédia delas é para enfatizar o quão inferiores e desengonçadas elas são comparadas com a bondade, inteligência e a graciosidade de Cinderela. Mas elas também são capazes de grandes atrocidades, como humilhar a protagonista a mando da mãe, são claramente manipuladas, foram criadas daquela forma e acreditam estarem certas, não são capazes de autocrítica.

Seus amiguinhos animais são engraçados e, para uma criança, eles são um bom entretenimento, mas para um adulto eles podem distrair um pouco da seriedade da trama principal. A fada madrinha estranhamente aparece e nunca mais volta, mas sua presença é tão marcante que ninguém percebe que a existência dessa personagem na história é quase sem sentido, considerando o realismo de tudo até então.

A animação desse filme é esplêndida, é tão sutil que os personagens poderiam ganhar um Oscar por atuação. O peso, a forma que eles andam, o sentimento no olhar, com poucas expressões e movimentos você já sente o que eles estão sentindo e pensando, igual com humanos de verdade. É um dos trabalhos de animação mais geniais que há na história.

No geral, é um filme lindo, com uma boa mensagem de manter sua dignidade e esperança mesmo em tempos mais difíceis. Mesmo que hoje em dia faça um pouco de falta ela ter sido mais ativa, considerando o histórico da personagem, seu comportamento é compreensível e para um filme lançado em 1950, ele é até bem para frente. É uma janela no tempo, mas uma que ainda dá para se identificar.

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