Crítica: Nós (2019)

Nós

Nós é o segundo filme de Jordan Peele, diretor de Corra!, que se reinventa nesse thriller ousado e arrebatador, e que cumpre bem a promessa de tirar o fôlego do espectador do início ao fim.

Lançamento: 22 de março de 2019
Direção: Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss

Sinopse:

Em 1986, a ainda criança Adelaide foi passear com os pais num parque em Santa Cruz, no litoral da Califórnia. Lá, o pai desatento deixa a menina caminhar sozinha pelo parque até encontrar uma “casa de espelhos”, onde ela acredita ter visto uma espécie de doppelgänger (ou sósia) de si mesma. Anos mais tarde, já adulta, Adelaide (Nyong’o) e seu marido Gabe (Duke) voltam à casa de praia com os dois filhos para um fim de semana ensolarado. Apesar da insegurança de Addy, tudo parece caminhar normalmente… Até que estranhas figuras aparecem em frente a casa deles: quatro pessoas de mãos dadas, cópias idênticas da família.

Após o sucesso estrondoso de “Corra!”, que rendeu a Jordan Peele (em seu debut) três indicações e uma vitória no Oscar 2018, na categoria de Roteiro, o muito novo e já consagrado diretor retorna com Nós, um ousado e divertido thriller cheio de referências intrigantes e muitos, muitos momentos de tensão de tirar o fôlego.

Para começo de conversa, Nós é diferente de Corra! em muitos sentidos: Peele não reaproveita o formato de seu primeiro filme e muito menos o tema. Corra! é uma crítica – em formato de sátira – muito clara ao racismo (isso nem precisa ser comentado aqui), mas em Nós, Peele discorre sobre nacionalismo, xenofobia e a divisão conflituosa de ideais políticos entre os cidadãos americanos. Mas, a ideia não fica tão na cara assim, e o espectador precisa pegar as referências presentes nas cores, postura e até nas falas dos personagens da trama, seja nas dos protagonistas ou de seus clones malignos.

E enquanto terror, Nós funciona muito bem e é muito ousado mesmo. Enquanto é comum em filmes do gênero que a tensão vá se construindo aos poucos entre os dois primeiros atos, para ter seu clímax e conclusão no terceiro, a tensão em Nós começa muito cedo, ainda nos primeiros 20 minutos de projeção. Quando as quatro cópias aparecem na entrada da garagem dos protagonistas e o espectador começa a se perguntar o que diabos está acontecendo ali, não sobra mais tempo de respirar ou piscar: dali para frente o longa se desdobra num thriller quase slasher com muito sangue, que passa por ficção científica e tem cenas divertidas de alívio cômico (que ficam quase sempre por conta de Winston Duke, o M’baku de “Pantera Negra”).

E sobre o elenco, vale destacar a participação curta porém empolgante de Elisabeth Moss, premiada atriz de TV que abocanhou prêmios nas séries “Mad Men” e a recente “The Handmaid’s Tale”. Duke também está muito bem e os filhos dão um show administrando tensão e comédia, mas é Lupita Nyong’o a grande estrela de Nós.

Conhecida por seu papel como Nakia em “Pantera Negra” e, principalmente, pela tocante e grandiosa atuação em “12 Anos de Escravidão”, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2014, Nyong’o é uma atriz talentosa, carismática e muito segura em tudo que faz. Em Nós, ela se divide entre a protagonista Addy e sua sombra, a cruel e vingativa Red, carregando toda misticidade e dualidade das personagens do início ao fim, além de ter um terceiro ato todo dela, praticamente. Ela toma o filme para si com muita responsabilidade e, em conjunto com a direção precisa de Peele, o resultado é um filme com atuação digna de Oscar, num nível que dificilmente será superado ainda em 2019. Talvez a melhor atuação feminina nos meses que estão por vir.

E é difícil dizer se Nós vai ter o mesmo feito de Corra!, que foi lançado muito antes do Oscar e ainda conseguiu algumas indicações e um prêmio, mas ignorar a performance de Nyong’o aqui seria um crime nos moldes do que aconteceu com Toni Collette, que foi deixada de lado mesmo com a marcante atuação em “Hereditário”, de 2018. Resta esperar e torcer para que o “efeito Peele” volte a acontecer.

Concluindo, Nós é o melhor lançamento do ano até o momento, um filme que pode até dividir opiniões dependendo do espectador, mas que já está aclamadíssimo pela crítica, e que promete gravar seu nome entre os filmes do gênero terror nos anos que estão por vir. Vale, e muito, o ingresso! Corra! para os cinemas!

Galeria:

Trailer:

Compartilhar: