Crítica: O Castelo de Vidro (2017)

Um pai alcoólatra, uma mãe negligente e os sonhos de uma jovem em ser livre. Um drama baseado em fatos reais que promete comover quem o vê.

Lançamento: 24 de agosto de 2017
Direção: Destin Daniel Cretton
Sinopse:

Baseado no livro Castelo de Vidro”, da jornalista Jeanette Walls, a trama retrata a infância da escritora, criada com os irmãos no seio de uma família desequilibrada, bastante pobre e nômade.

Quando a idéia de entregar um longa baseado em fatos reais é colocada em prática, a direção e produção devem por em prática o máximo de cautela possível, afinal de contas, irão tratar sobre a vida de uma pessoa que sorriu, chorou, sonhou, sentiu medo, perdeu e conquistou, e assim acontece com O Castelo de Vidro, que veio na direção de Destin Daniel Cretton.

A história baseada em fatos reais, roda em torno de uma família composta por seis pessoas, Rex e Rose Mary Walls e seus quatro filhos, Jeanette, Brian, Lori e Maureen. Aqui o espectador é apresentado a diversos pontos complicados, como pedofília, abandono, corrupção de menor, alcoolismo, inanição e covardia, ou seja, não é um filme que apresenta a felicidade a todo instante e apesar de muitos momentos alegres e cenas belas, o espectador consegue compreender que é um drama pesado e extremamente realista, já que inúmeras famílias passam pela mesma situação mundo a fora.

É certo dizermos que mesmo sendo baseado em fatos reais, vindo do livro escrito pela protagonista, Jeanette Walls, ele sofreu algumas alterações. Para quem leu o livro – O Castelo de Vidro – consegue compreender o que faltou ou o que sobrou, mas para o espectador que comprou a vontade de assistir, lentamente ele se torna amargo. A direção entrega o longa com nossa protagonista já bem de vida, noiva de um homem de negócios e que mesmo em sua fase adulta ainda carrega consigo várias marcas do passado. No momento em que estamos em sua atualidade, nossa protagonista se pega perdida em lembranças de sua infância e adolescência, o que coloca o espectador lado a lado de cada dor e anseio da jovem menina.

Em sua fase infantil, somos apresentados a pais negligentes e irresponsáveis, onde diversas vezes o espectador ouve “não devemos trocar nossas vidas com céu estrelado por uma vida luxuosa e céu poluído”, o que acaba resultando na criação de – até então- três crianças sem formação escolar, sem moradia fixa e sem dinheiro para comer. Mesmo tendo como um alivio a inocência das crianças e os sonhos de um pai desequilibrado com sua segunda filha (Jeanette), o espectador consegue criar empatia apenas pelas crianças e o repúdio pelos pais apenas se inicia, já que temos 2 horas e 08 minutos de entrega. É revoltante ver uma criança com seus 4 a 6 anos de idade, tendo que subir em um banco, colocar salsichas em água fervente para poder se alimentar e alimentar sua familia, enquanto sua mãe que afirma ser uma artista, fica sentada pintando suas telas. Neste momento, a revolta toma conta, principalmente por sabermos que algo grave irá acontecer , como a saia da criança pegar fogo e ela ter parte de seu corpo queimado graças a negligência de sua mãe. A cena da criança no fogão seria apenas uma demonstração de tudo o que nossa protagonista passou quando criança e deixa claro de que muita coisa ruim iria acontecer.

Assim quando em determinado momento, Jeanette começa a recordar de sua adolescência, talvez essa época tenha sido ainda mais cruel para a jovem moça, já que fora obrigada a estar com seus avós paternos e presenciar momentos realmente tensos, como a avó batendo em seu irmão ou abusando sexualmente dele.

Aqui não existe exatamente um vilão a não ser as atitudes de seus pais, que provam de início a fim o amor que sentem por seus filhos, mas que graças as suas ignorâncias culturais e de formação, acabam fazendo seus filhos sofrerem quase que por toda vida.

O elenco parece ter sido escolhido a dedo para viver cada personagem aqui entregue, talvez se fossem outros atores o longa não tivesse o peso que tem. Woody Harrelson que vive Rex Walls, o pai de família ignorante, alcoolatra e sonhador, mostrou uma firmeza muito grande em seu papel e conseguiu fazer com que o espectador pegasse raiva não apenas de sua personagem, mas até mesmo do ator, já que tudo é muito real e próximo do que vivemos. Naomi Watts que interpreta Rose Mary, uma mãe negligente e sem voz ativa, mostrou que poderia ter se saído melhor, mas graças a Brie Larson que viveu Jeanette Walls, o elenco foi praticamente ofuscado. Larson conseguiu transmitir os mais diversos sentimentos todas as vezes que entrava em cena, fosse para conversar com seu noivo ou discutir com seus pais, a atriz mostrou que ela estava ali para dominar a situação e se saiu muito bem. Não podemos e nem devemos nos esquecer do elenco infantil, principalmente das suas jovens que deram vida a nossa protagonista quandro criança-adolescente.  As crianças com toda certeza ficaram com o peso ainda maior, já que o drama entregue por elas é forte e os olhares tristes fazem com que o coração até do mais durão se derreta e transborde.

Como já dito, tratar sobre a vida de uma pessoa dentro de uma obra cinematográfica não é lá o trabalho mais fácil, exige cuidado para não exagerar ou faltar em nada, afinal de contas, é a história de uma vida. O roteiro acaba pecando em alguns momentos que são delicados e isso acaba incomodando e não tem muitas explicações, como por exemplo, em um determinado momento temos o irmão de Jeanette sendo abusado pela avó, as crianças batem na senhora, choram, esperneiam e fim, nada é explicado e o espectador fica sem entender até mesmo como os pais chegaram ali, ou quando temos Jeanette chorando sem dinheiro para poder se mudar, mas do dia pra noite ela já aparece dentro de uma Universidade em Nova York. A impressão que temos é que a direção precisou correr parar entregar um ato final feito de qualquer jeito simplesmente para tentar tapar os buracos que o roteiro acabou deixando.

Uma pena que o roteiro tenha cometido tantas falhas que não passam desapercebidas aos olhos do espectador, principalmente por explicar quase que em seu ato final o porquê do título da obra e também o que motivou o pais a ser como era, mas uma coisa é fato, o espectador fica preso ao longa e mesmo entendendo sua rodagem relativamente lenta, deseja ver o desenrolar da história para conseguir ficar em paz.

A fotografia foi bem explorada, a direção e toda produção conseguiu trabalhar muito bem a idéia do luxo, da simplicidade, vida no interior e cidade grande, o que vale como ponto positivo, ainda mais quando a trilha sonora decide entregar em jogo, ela conduz o espectador a momentos sensíveis e emocionantes, mas acaba ficando a desejar em momentos que se ela estivesse sendo utilizada, talvez tivesse dado um impacto ainda maior.

Apesar de ser uma triste e dura história carregada com um final relativamente feliz, o espectador acaba ficando reflexivo com seu ato final. Ele conversa direto com o espectador, o coloca dentro do filme e faz com que ele sinta tudo o que todos os jovens ali dentro estão sentindo, é a tal da empatia e aqui isso funciona muito bem. Talvez se a direção tivesse aproveitado ainda mais o elenco e encurtado o tempo de entrega, o filme teria se destacado ainda mais, mas como nem tudo são flores, com questões amargas e dadas até como cruéis, ele acabou tornando-se merecedor de 3 baldes de pipocas.

3 pipocas

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