Crítica: Réquiem para um sonho (2000)

OBS: Esta Analise pode conter Spoilers. 

Em uma verdadeira pancada cinematográfica  conferimos um filme onde devemos esquecer a frase que “ cinema é diversão”, réquiem para um sonho é pesado, cruel e realista, onde a diversão não existe e o que realmente existe é uma viagem alucinante e muito perturbadora ao mundo das drogas.

De forma jamais vista nas Telas, Darren Aronofsky aborda um tema repetitivo mas de maneira diferenciada, ao imprimir muita profundidade em ousar na exploração dos conteúdos inseridos.

Inicialmente parece que não veremos nada de tão surpreendente, traffic  recente ao ano de réquiem já tinha abordado o assunto, a diferença é que este nos mostrava o mundo das drogas por diversos ângulos, enquanto réquiem para um sonho tras os personagens para junto do espectador, focando simplesmente nos efeitos das drogas, sejam elas licitas ou ilícitas, palpáveis ou abstratas, visíveis ou psicológicas, desta forma temos um filme forte e direto, que não faz rodeios e não trata do tema de forma didática. Mesmo que na ousadia de Aronofsky ainda surjam controversas , é perceptível que tal opinião venha pelo fato de não compreenderem a tamanha coragem de jogar na cara da sociedade um problema que todos sabem que existe mas fingem desconhecer.

Em réquiem não existe violência urbana, é basicamente uma historia brutal de sonhos despedaçados em um conflito de 4 personagens que  se interconectam caminhando a  passos largos para a desgraça. Harry ( Jared Leto) é um jovem que persegue o ideal de riqueza e felicidade mas acaba viciando-se em heroína, Sara Goldfarb ( Ellen Burstyn), mãe de Harry, que é viciada em um programa de tv e após ser convidada para participar do mesmo, inicia uma obsessão para entrar em seu vestido vermelho e começa a tomar inibidores de apetite, Marion ( Jennifer Connelly) namorada de Harry, uma menina rica mas que não possui um bom relacionamento com seus pais e Tyrone ( Marlon Wayans), Amigo de Harry e parceiro na transação de trafico que pretendem iniciar.

A narrativa é contada através das estações do ano. O verão, estação luminosa onde os sonhos começam, o outono, onde a felicidade que cada um experimentou na estação passada começa a despencar como as folhas das árvores dessa época, o inverno , a estação que trás consigo a aniquilação de sonhos e desejos e a primavera que não é retratada durante o filme mas após seu termino conseguimos idealiza-la como recomeço e esperança.

O longa tem uma atmosfera estranha, desde o inicio temos a sensação de que algo ruim vai acontecer ( mas nem pense que torna-se previsível)  nunca nos sentimos confortáveis. Em uma  linguagem videocliptica com utilizações de montagens, dividindo tela, levando a um dinamismo pouco visto, cortes frenéticos de forma a proporcionar ao espectador as sensações diante do caos alucionatório, feita com instabilidade de câmera, Aronofsky  constrói uma anáfora cinematográfica com divisões e repetições de cenas, tomadas em zoom e closes que dão todo o tom perturbador e realístico que fazem toda a diferença. O espectador quase consegue ficar “chapado”com os recursos muito bem trabalhados para dar o teor “agressivo” que o filme possui.

O elenco é indiscutivelmente bom! Jared Leto se entrega a um papel complicado, inicialmente observamos um rapaz sonhador e aos poucos acompanhamos a sua transformação até um termino de deixar qualquer um com um nó na garganta, Jennifer Connelly compõe perfeitamente o que lhe foi proposto, com bastante consistência ela passa veracidade e acreditamos em suas fragilidades, desespero e expectativas, Marlon Wayans( quem diria vermos em um papel realmente serio) em nenhum momento compromete a qualidade da obra, mesmo que se sua atuação não se compare a do resto do elenco, mas o grande destaque fica por conta de Ellen Burstyn que simplesmente da um show a parte, a atuação é tão visceral que fica difícil não acreditar que realmente exista uma Sara Goldfarb Anfetaminada , é bem correto afirmar  que se trata de uma das melhores interpretações femininas da historia do cinema.

A trilha sonora é marcante, a musica que permeia os 102 minutos da película é de uma sensibilidade singular, transpassando sentimentos e sensações que dificilmente seria captado com tanta poeticidade. A mistura de tenso e sublime, pontua de forma brilhante as cenas passadas, e torna a trilha um novo personagem. Acredite, mesmo que você seja daqueles que detestam exageros nesse sentido,em réquiem você certamente ficará viciado.

O filme é verdadeiramente chocante, até os mais indiferente sairão pensativos após os créditos finais, pois é difícil digerir a demonstração real de nossa sociedade doente e sádica, em certos momentos percebemos como o individualismo impera e nos 40 minutos finais o que conferimos é uma insana e constante queda onde podemos ver os efeitos daqueles que ousaram a subestimar os próprios limites , e a sensação que fica é depressiva e angustiante com um desfecho que é sem duvidas, um soco no estômago.

O fato é que, talvez réquiem para um sonho não tivesse sido tão extraordinário  não fosse pelo fato de ter em seu comando alguém suficientemente inteligente para extrair um trabalho com realidade nua e crua, com ousadia ímpar ao abordar um tema complexo e transformar uma historia que poderia ter sido banal em algo brilhante. A conclusão é que Aronosfky não quis dar lição de moral e sim “ vomitar” a verdadeira ruína causada pelas drogas e outros vícios, cabe cada um refletir se o que viu é suficiente.

Merecedor de 5 baldes de pipoca;

5 pipocas

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