Crítica: Tiranossauro (2011)

tiranossauro

Tiranossauro é uma cruel história sobre desamparo e insegurança na intimidade do cidadão comum, homem e mulher abatidos por suas próprias realidades, em busca de redenção e um novo caminho.

Lançamento: 7 de outubro de 2011
Direção: Paddy Considine
Elenco: Peter Mullan, Olivia Colman, Eddie Marsan

Sinopse:

Joseph (Mullan), um viúvo desempregado que usa violência como autodefesa, entra numa loja para se esconder de uma confusão e acaba conhecendo Hannah (Colman), uma mulher religiosa que oferece ajuda ao homem. Apesar de um primeiro contato conflituoso, Joseph passa a visitar a loja constantemente e eles desenvolvem uma forte amizade.

Tiranossauro é o primeiro longa de Paddy Considine, ator britânico de filmes como “O Ultimato Bourne” (2007) e “Blitz” (2011), conhecido por fazer personagens obscuros e moralmente ambíguos. Aqui ele assina também o roteiro, sendo o longa uma versão do seu curta “Dog Altogether”, lançado em 2007. As duas versões foram aclamadas, ganhando prêmios no BAFTA, em Veneza, Sundance e alguns prêmios da crítica inglesa e americana.

Tiranossauro acompanha a relação de dois personagens que se encontram em momentos conturbados de suas vidas: Joseph mata seu próprio cachorro num surto alcoólico e está a beira da autodestruição; e Hannah, que comanda a loja com um sorriso e aparentemente tem uma relação conjugal tranquila, na verdade sofre nas mãos de um marido (Marsan) abusivo e violento.

O roteiro do filme é desses que dão espaço total para o ator brilhar e desenvolver seu personagem com liberdade e competência, o que não falta na dupla de protagonistas. Mullan é um talentoso ator escocês vencedor do Leão de Ouro e premiado em Cannes, que rasga uma atuação feroz num personagem temperamental e amargado por traumas passados. Joseph é um homem que quase nunca sorri, destila palavras cruéis para os outros e distribui ódio gratuito. Mora sozinho desde que a esposa faleceu e seu melhor amigo está morrendo de câncer, situações que dão a Mullan a chance de construir um personagem com background interessante. Atuação inteligentíssima.

Já Olivia Colman, prêmiada atriz britânica que venceu o Oscar no último domingo, tem uma personagem talvez mais interessante que o protagonista, uma esposa dedicada que administra um negócio e arranja tempo de fazer as tarefas do lar e a janta, só para ser oportunada pelo esposo, que chega bêbado a hora que quer, queixa-se da falta de sexo, tem surtos ciumentos, humilha e agride a esposa. São cortantes as cenas onde Hannah tenta encontrar desculpa para o inchaço nos olhos. A primeira cena de interação entre os dois já é um absurdo sem tamanho.

Mas Colman não usa o drama como muleta, o que poderia facilmente tornar a atuação caricata ou exagerada nas mãos de uma atriz qualquer: ela vai na cerne da personagem, compreende a postura de uma mulher nessa situação, sabe exatamente quais expressões faciais usar, e tem um olhar que, mesmo quando encontra algum conforto, esconde uma dor ali atrás, no íntimo. O diretor também soube trabalhar muito bem com a atriz que, curiosamente, teve aqui seu primeiro trabalho dramático num longa, praticamente um descoberta para o cinema.

Tiranossauro – o título não tem absolutamente nada a ver com a história, não espere que um dinossauro apareça ao longo dos 90 minutos de projeção, – é um drama desses para assistir e passar alguns dias, semanas e até meses digerindo. São situações tão reais, nas quais você pode reconhecer algum rosto familiar (e até mesmo o seu), que chega a ser incômodo como o filme te convida a mergulhar nele. Não há tempo para beber água ou fazer uma pausa: ele te carrega e te envolve tão facilmente, que quando menos espera ele já acabou e você fica lá, estilhaçado.

É interessante também que, na época do sucesso do filme nos festivais ingleses, muitos comentavam sobre a chance de uma indicação ao Oscar, o que não aconteceu e é fácil entender: um filme independente que não faz muito o tipo da Academia. Mas considerando a edição de 2012, é fácil afirmar que Olivia Colman está muito, mas muito superior aqui a Meryl Streep em “A Dama de Ferro”, atuação que deu para a veterana sua terceira estatueta. Num mundo justo, “A Favorita” teria dado um segundo “careca dourado” para Olivia Colman.

Não é um filme para todo mundo, mas vale muito conferir.

Galeria:

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