Crítica: Parasite (2019)

Primeiro representante sul-coreano a vencer a Palma de Ouro em Cannes, Parasite é impossível de categorizar: uma tragicomédia absurda que transita entre drama familiar e thriller, essa obra é um dos, quiçá o melhor filme do ano.

Lançamento: 21 de Maio de 2019 (Cannes)

Direção: Bong Joon-ho

Elenco: Song Kang-ho, Choi Woo-shik, Park So-dam

Sinopse:

Vivendo num apartamento subterrâneo de uma região periférica da Coréia do Sul, uma família de quatro pessoas – pai, mãe e um casal de filhos, – sobrevive de pequenos trabalhos que conseguem aqui e ali, enquanto buscam sinais abertos de wi-fi nas casas vizinhas.

Quando o jovem Ki-woo é convidado por um amigo para substituí-lo como professor particular da filha de uma família abastada, é orquestrado um plano de infiltração para que todos os quatro tornem-se seus empregados: eles criam personagens e histórias bem inventadas, sabotando os já funcionários da enorme mansão, vendendo-se como professores, motorista e caseira bem intencionados, minando e manipulando pouco a pouco a residência dos Park.

Quando se instalam e sentem-se os donos do lugar, como verdadeiros parasitas, um medonho segredo escondido nas paredes vem à tona.

Seguindo a ótima maré que o cinema sul-coreano vive nos últimos anos – são de lá obras aclamadas como “Em Chamas” (2018), “A Criada” (2016) e “Invasão Zumbi” (2016), – Parasite (ainda sem título no Brasil) é um drama familiar absolutamente singular, executado com uma maestria irretocável e que entrega momentos de entretenimento e tensão como poucos filmes em 2019 fazem.

Inquietante na essência, o filme pode (e talvez apenas possa) ser descrito como “impossível de categorizar”. O roteiro afiado discorre uma tragicomédia absurda, torna-se um thriller de tirar o fôlego ainda na sua metade, e mescla críticas ao abismo social entre as duas famílias no centro da trama, ora com detalhes simples talhados em sua brilhante fotografia, ora com situações escandalosas que reforçam esse abismo.

Basta um dos ricos tapar o nariz disfarçadamente para esquivar-se do fedor dos mais pobres, e está anunciado o desastre.

A obra, que possui perfeitos 130 minutos de projeção, cresce tanto ao desenrolar da trama, construindo uma atmosfera claustrofóbica e desesperadora tão pesada, que é difícil assisti-lo sem uma pausa para tomar um ar. Num dado momento, de um filme que vinha caminhando num ritmo redondinho, acontecem reviravoltas tão desastrosas que não sobra mais tempo para o espectador descansar: água, suor e sangue compoem a avalanche de eventos desconsertantes nos segundo e terceiro atos do filme, que tem um dos desfechos mais satisfatórios do cinema nessa década.

É um estudo sobre ganância e discrepância entre dois lados de uma mesma cidade, sobre o medo que se instala lentamente e devora suas vítimas em silêncio, quase inofensivo.

Alguns frames horripilantes, uma direção que está além do perfeito e a trilha sonora pontual dão a esse filme o título de “o melhor do ano até agora”, sem dúvidas. O elenco é outro acerto: Song Kang-ho, o pai, é absoluto em cena, e a interpretação da Cho Yeo-jeong, a preocupada e enérgica Madame, é um achado para qualquer não conhecedor do cinema sul-coreano que esteja procurando por referência de boas atrizes. Que elenco, senhores!

Tendo assinado “Okja” (2017), que foi vaiado há dois anos em Cannes, o diretor Bong Joon-ho – que tem outros trabalhos excelentes no currículo como “O Hospedeiro” (2006) – deu uma volta por cima histórica na última edição do Festival, meses atrás: “Parasite” é o primeiro filme sul-coreano a vencer a Palma de Ouro, o prêmio máximo concedido em Cannes. Entre outros vencedores estão “Assunto de Família” (Japão, 2018), “Amor” (Áustria, 2012) e “Pulp Fiction” (EUA, 1994).

Nenhuma outra palavra define melhor Parasite que perfeito. Em todos os quesitos, em cada cena cuidadosamente selecionada, nos ótimos diálogos e plot twists bem construídos, Parasite é um filme pensado e feito com maestria, e entra para a história como um marco do cinema asiático, que fabrica o melhor do cinema nos últimos anos e promete continuar nesse ritmo. Absurdo, cruel e gigante! Que chegue aos cinemas nacionais logo!

Galeria:

Trailer:

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