Análise Psicológica do filme: Psicose (1960)

Psicose

Olá pessoal! Quem aqui já viu Psicose? Mesmo que não tenha visto com certeza já ouviu falar ou pelo menos viu a famosa cena em preto e branco da mulher gritando no banho quando o assassino vem matá-la com uma faca, né?

ATENÇÃO, ESSE ARTIGO CONTÉM SPOILERS

Psicose é um filme clássico na Psicologia, pois além de tratar de uma patologia psiquiátrica tem sido objeto de análises da dinâmica entre os personagens, especialmente a dinâmica relação mãe e filho. Neste artigo vou contar um pouco de como analiso alguns aspectos do filme do ponto de vista de uma teoria psicológica muito importante: a psicanálise. Mesmo quem nunca leu nada de psicanálise poderá entender (vou explicando aos poucos os conceitos que vão aparecendo para a nossa análise).

Vamos lá!

O enredo básico de Psicose é sobre uma secretária chamada Marion Crane (Janet Leigh) que rouba uma quantia consideravelmente alta na época (US$40k) do seu patrão e foge com essa quantia. Marion chega para se hospedar – após uma longa viagem de carro – em um hotel beira de estrada (mas um pouco fora da rota tradicional) – o Motel Bates.

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Inclusive, a série Bates Motel foi inspirada no filme para contar a história ANTES de Psicose. Marion Crane é recebida pelo funcionário e gerente do hotel Norman Bates. Um rapaz muito simpático e prestativo. Decide hospedar-se imediatamente para descansar da longa viagem.

Nos EUA, um motel é diferente do conceito de motel aqui no Brasil. Lá significa apenas um hotel bem barato para passar a noite ou ficar algum tempo. Norman Bates administra o hotel da família e mora numa casa enorme ao fundo com sua mãe, chamada Norma Bates (perceberam a semelhança no nome?). Aí que a coisa começa a acontecer no filme.

Norman fica interessado em Marion que é muito bonita e a convida para jantar na sua casa. Marion acha o rapaz muito educado e prestativo e aceita o convite. Contudo, Norman ao ir até sua casa e informar sua mãe da visita ouve da mãe aos gritos e xingamentos que ele não irá levar ninguém na casa deles, nenhuma mulher ainda mais oferecida assim.

Norma fica muito nervoso e volta com um copo de leite e um lanche para que possam comer no hotel mesmo. Mas ele em si não come nada. Disse que está sem fome e trouxe somente para ela. Durante a conversa Marion comenta sobre os animais mortos que estão no escritório. Norma diz que é tem como hobby a taxidermia, que é a prática de empalhar animais mortos para mantê-los como o mesmo aspecto de quando estavam vivos.

Além disso, Marion resolve tocar no assunto da mãe de Norman, a Norma Bates. Insiste em dizer em como ele provavelmente abdique da liberdade dele e de viver outras coisas em outros espaços longe dali por causa dela. Norman argumenta que sua mãe é doente e por isso ele tem que cuidar dela. Marion dá a entender que é possível internar a mãe dele numa instituição psiquiátrica, o que deixa Norman extremamente nervoso. O jantar acaba dessa forma.

Marion vai para seu quarto e resolve se banhar. De repente a mãe Norma entra no banheiro a assassina com uma faca. Depois disso foge. Norman chega, vê a cena e resolve pegar o corpo de Marion e jogá-lo no rio e limpar o banheiro e o quarto para não deixar vestígios do crime.

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O filme prossegue com a procura de Marion através da sua irmã e do detetive particular contratado pelo chefe de Marion afim de recuperar o dinheiro roubado. Além disso, a irmã  envolve o amante de Marion nessa história. Acabam todos no Motel Bates e desconfiam que algo aconteceu. Acham que Norman pode ter assassinado ou estar mantendo Marion refém pelo dinheiro que ela roubou.

No final das contas, entre brigas e discussões conseguem entrar na casa dos Bates e ir ver a mãe Norma, pois acham que ela sabe de algo. Descobrem com a polícia que, na verdade,  Norma Bates havia morrido há muitos anos e que não havia ninguém naquela casa enorme. A irmã e o amante de Marion vão até o porão e lá encontram o esqueleto de Norma Bates em uma cadeira de balanço. Nesse momento chega Norma  vestido como sua mãe tentando matá-los, mas é impedido e preso.

Na análise final do filme, o psiquiatra diz que quem matou Marion foi e não foi Norman. Foi Norman enquanto pessoa, mas não enquanto ele acha que é. Pois, na verdade, ele acha que é sua mãe. Nesse sentido, foi a mãe, Norma, que matou Marion e também outras pessoas ao longo desses anos. O filme termina com Norma preso falando consigo mesmo e tendo a variação de discurso entre ele mesmo e de sua mãe.

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Freud foi alguém que deu muita importância nas relações parentais, especialmente na infância. Mesmo hoje em dia com outras teorias psicológicas vigentes (Análise do Comportamento, Fenomenologia Existencial, Terapia Cognitivo Comportamental, Psicologia Positiva etc) não podemos descartar o papel que as figuras parentais tem no processo de formação da criança enquanto sujeito em uma sociedade.

E mesmo quando não há uma mãe ou pai (famílias monoparentais, homoafetivas e outras configurações) existe sempre alguém que a criança elege como figura parental, inclusive pode ser fora da família imediata. Nesse sentido, temos sempre que entender como a criança elaborou esse tipo de relação. Quais eram suas referenciais? Cada família tem uma dinâmica específica. Certas famílias comem em um horário determinado todos juntos. Em outras os horários variam e todos comem separados, por exemplo.

Os modelos e dinâmicas familiares variam muito, e isso tem que ser levado em consideração na formação do sujeito. No caso de Norman e Norma, podemos perceber já de cara algo importante: o nome. O nome na nossa cultura (e em muitas outras) é algo que nos identifica e dá identidade. Portanto, a eleição de um nome não é um fato aleatório. É carregada de significado, como, aliás, tudo que fazemos.

Sobretudo quando falamos de uma criança, cujas expectativas da família começam já na vida intrauterina. Vai ser menino? Vai ser menina? Como vai se chamar? Que nome é esse e porque?  Vai ter o próprio quarto? Vai ter chá de bebê? Chá revelação (coisa mais atual)? São muitos significados, rituais e relações. Não podemos saber o porquê Norma colocou o nome em seu filho de Norman, mas é algo pra pensarmos e sabermos que não é aleatório.

Norman Bates no filme é filho único (na série Bates Motel tem um irmão). Moram somente os dois naquele casarão. O pai de Norman morreu faz tempo.  Então uma coisa podemos imaginar: eles, mãe e filho, Norma e Norman, têm uma relação muito próxima. Tão próxima que parece que o filho teve dificuldades em lidar com o fim dessa relação.

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É esperado que a relação entre mãe e filho seja próxima. É esperado, mas nem sempre acontece, claro. Contudo, entendemos que essa aproximação deve ter limites, para que a criança e a mãe tenham desenvolvimentos saudáveis. Caso contrário, falamos em relação tóxica e podemos falar também em relação simbiótica. Uma relação simbiótica na biologia é a relação de longo prazo entre dois organismos de espécies diferentes e que seja benéfica para ambos(mutualismo) ou somente benéfica para um e maléfica para o outro (comensalismo) .

Um exemplo de relação simbiótica benéfica para os dois: o camarão e uma espécie de peixe chamada Gobi. O camarão é cego e isso é uma desvantagem natural para sobreviver aos predadores. O Gobi avisa de algum predador que possa estar chegando; em troca disso o camarão mantém a serra onde vivem seca. E essa relação beneficia os dois.

Na psicologia entendemos que a relação simbiótica faz parte do processo de desenvolvimento humano, afinal, nossos filhotes homo sapiens não conseguem sobreviver sozinhos. São frágeis e morrem facilmente. Por isso a simbiose é um processo natural. Contudo, ela tem que acabar em certo estágio do desenvolvimento. Ou seja, a criança tem que crescer e entender que ela é um ser autônomo e poder explorar o ambiente aos poucos até tornar-se um adulto independente. Mas nem sempre isso acontece, e a relação simbiótica mantém-se e chamamos de simbiose patológica. Ela geralmente se dá ou pela superproteção da mãe com a criança ou da negligência.

No caso de Norma e Norman parece haver uma grande superproteção (de acordo com a história contada na série Bates Motel). Na incapacidade da criança de diferenciar a si mesma da mãe, já que não existe espaço para isso, a relação simbiótica mantém-se. E trás enormes prejuízos como inseguranças, medos, raiva e sensação de que não consegue viver sozinha ou assumir seus próprios desafios e explorar o ambiente.

A identidade fica fadada ao que a relação simbiótica diz que é. Na possibilidade de ausência dessa mãe ou pai (por abandono ou morte) a criança (ou já adulto) terá dificuldades enormes de saber quem é e pode assumir, inclusive o papel de um deles em sua vida, sentindo-se mais seguro, assim, em usufruir do papel de ego da mãe protetora ao invés do seu próprio de incapaz e dependente.

No caso de Norman Bates ele acreditava ser a mãe. No filme sabemos que ele ficou muito irritado quando a mãe casou-se novamente. Podemos inferir que sentiu ciúmes e medo de perder a mãe e por isso (segundo dá a entender no filme) ele matou sua mãe e o marido dela. Mas não conseguiu lidar com a ausência dela e por isso assumiu, em momentos de dificuldades, o papel da mãe. A mãe viva dentro dele jamais aprovaria ele se envolver com outra mulher (pois isso mexeria na relação simbiótica deles) e por isso matou Marion, garantindo assim a manutenção da relação deles.

Vamos agora analisar o espaço físico do filme Psicose em particular: a casa dos Bates.

A casa tem três andares: o térreo, o andar de cima e o porão. Isso é significativo em nossa análise. Por que?

Freud explica que temos três instâncias psíquicas que ele chamou de Id, ego e supergo. Resumidamente funciona assim:

ID: é onde ficam, como diz Freud, nossas pulsões. Podemos chamar de “desejos”. O Id está presente no nosso nascimento. Quando choramos e queremos leite ou quando estamos com frio e queremos nos aquecer ou o toque ou sermos abraçados (holding, como diz uma importante psicanalista infantil inglesa chamada Melanie Klein). E, em geral, somos gratificados imediatamente. Ou seja: se choramos, logo estamos mamando no peito ou segurados no colo. O id funciona com base no princípio do prazer: ele quer agora e não espera. Não tem conhecimento de tempo ou noção de bem e mal. Ele apenas quer e pronto. Existem as pulsões de vida (construção, criação) e pulsões de morte (destruição).

Ego: aos poucos desenvolvemos nossa noção de que somos alguém. Daí temos a perspectiva de que temos um Ego. O Ego funciona com base no princípio da realidade. Ele precisa ver o que é possível ser feito dentro das circunstâncias dadas.

Supergo: com o passar dos anos desenvolvemos mais ou menos aos 5 anos de idade nossa última instância psíquica: o superego. Ele é constituído a partir de nossas regras morais e éticas, aprendidas na nossa família através das culturas familiares e do país e civilização. O superego funciona com base no princípio do que é ideal, é o regulador dizendo o que pode e não pode,  o que é certo e errado

Tudo bem até aqui?

Agora vamos ver como podemos correlacionar essas três instâncias psíquicas com a casa dos Bates:

No andar mais alto (onde fica o quarto da mãe de Norma) podemos relacionar com o Supergo: as regras. A mãe que ditava tudo que podia e não podia, o certo e o errado. E que continua a ditar através do filho quando não quer que ele leve Marion para casa deles.

No andar térreo podemos relacionar com o Ego:  o princípio da realidade. A porta de entrada da casa, onde os outros entram, nossos relacionamentos.

No porão podemos relacionar com o Id: foi onde o corpo da mãe está. Nossa pulsão de morte (Norman matou sua mãe e a levou para lá).

Por fim, sempre que revemos o filme (e também a série) podemos observar sempre mais coisas interessantes para analisarmos, tanto do ponto de vista da psicanálise quanto das outras abordagens da psicologia.

Com certeza Psicose se tornou um clássico na psicologia como uma das grandes pioneiras do gênero thriller psicológico que nos faz pensar na construção do ser humano e em como nossas relações, ainda que com “amor” (cuidado para não chamarmos de amor coisas que são na verdade apego, desejo, carência, posse, dominação) possam trazer prejuízos pra vida toda. Norman Bates que o diga!

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