Análise Psicológica do filme: Coringa (2019)

Análise Psicológica do filme: Coringa

Olá pessoal, tudo bem? Que Coringa está sendo um dos filmes mais comentados em 2019, isso ninguém pode negar. Mas como ele é visto dentro da psicologia?

Gostaria de apresentar aqui minhas reflexões e análises sobre o filme O Coringa.

Joaquin Phoenix Joker GIF - Find & Share on GIPHY

Diferentemente dos outros filmes do gênero, O Coringa fala muito a respeito dos eventos que formaram a psiquê do ator principal do que uma luta entre o bem e o mal com efeitos especiais, explosões e um final feliz. Passando muito por angústias, dúvidas, tentativas de se encaixar, formação de identidade e rupturas existenciais, o filme é um prato cheio para quem se interessa por ciências como a psicologia, sociologia e filosofia. E, claro: este texto contém SPOILERS a partir de agora!

Lembrando que assisti o filme apenas uma vez, então essas são algumas reflexões do que consegui vendo o filme dessa vez. Provavelmente quando eu assistir novamente pensarei em mais coisas. Não vou me demorar no roteiro, mas sim ir para os pontos que achei importantes:

Cena inicial

Já na primeira cena temos algo que me deixou intrigado. Um palhaço se maquiando diante do espelho, e uma lágrima que cai do olhos borrando a maquiagem. Não é uma lágrima falsa, é real. O contraste já está aí – um palhaço que chora e tem que ensaiar um sorriso.

“Put on a happy face”

Coloque um sorriso em seu rosto. É o lema de Arthur. Além disso, sua mãe o chama de Feliz. É um filho que nasceu com uma missão dada pela mãe: ser alguém feliz o tempo todo. Talvez por isso a profissão de palhaço e a aspiração de comediante.
“Mas você não tem que ser engraçado para ser comediante?”, pergunta a mãe. Mensagens dúbias ela envia para ele: ao mesmo tempo em que quer que ele seja alguém feliz o tempo todo, o desmerece na possibilidade de ser comediante.

Análise Psicológica do filme: Cisne Negro (2010)

O riso

O riso no contexto da vida dele é algo forçado, é uma condição neurológica. Não é algo natural, fluido. Daí temos a condição de conflito e angústia: ter que viver para alcançar as expectativas da mãe em ser feliz e alegre, mas jogado num mundo em que o abandono, a violência e a incompreensão reinam. Tentou se encaixar por muito tempo. Não teve sucesso. Sorrir – somente de forma artificial, através da máscara social do palhaço que ele (ou será sua mãe?) que escolheu para si.

Warner Bros Lol GIF by Joker Movie - Find & Share on GIPHY

As mortes reais e simbólicas

Arthur tem na sua rede de laços afetivos e suporte apenas uma pessoa: sua mãe. A vizinha que ele fantasia a respeito de um romance é um laço afetivo imaginário. Os colegas de trabalho não são pessoas que de fato o apoiam, exceto em certa medida o anão.

A primeira descoberta que o faz repensar sua identidade e rede de suporte: abrir a carta de sua mãe e descobrir que é filho do famoso Wayne .A figura paterna que até então está omissa no filme, surge. Ele vai até Wayne. Este nega que seja pai de Arthur e ainda o questiona o que ele quer, se deseja dinheiro. Arthur diz que não, só quer ser reconhecido como filho, apenas deseja o afeto, Esse afeto não só lhe é negado como também ele sofre um golpe no nariz. Wayne ainda adiciona mais uma informação: Arthur é adotado.

Em busca de respostas ele vai até o Hospital Psiquiátrico em sua sua mãe esteve internada há 30 anos. Descobre três coisas que são derradeiras para reavaliar sua identidade e sua forma de viver:

1. É filho adotivo. Ou seja: sua mãe não é mãe biológica
2. Sua mãe tem uma condição psiquiátrica (psicose persecutória e Transtorno de Personalidade Narcisista)
3. Sua mãe deixava os ex namorados cometerem violências físicas em Arthur.
O riso é incontrolável, juntamente com o choro. Uma espécie de catarse através dessa quebra de paradigma.

Arthur parece, nesse momento, matar sua mãe simbolicamente. Morte essa que precede a morte física através do assassinato dela através de suas próprias mãos. Na hora de assassiná-la ele faz questão de dizer que o riso dele não é um problema, mas que ele sempre foi assim. Uma forma de aceitar sua condição. Livre da missão de viver à altura das expectativas da mãe que o chamava de Feliz ou pelo lema de vida “Sempre coloque um sorriso no seu rosto”, Arthur começa a, de fato, se transformar no Coringa.
A segunda morte simbólica e real foi do colega de trabalho. Anuncia que vai ao programa do Murray e depois o mata. Sem remorso algum. Uma forma de demonstrar com a morte do colega que já não importava mais o que os colegas pensavam dele. O anão é poupado por ter sido o único que o tratou de alguma forma norma, talvez por sentir na própria pele o que é viver à margem da sociedade.

A terceira morte simbólica e real foi do próprio Murray, como figura paterna simbólica.

Vamos voltar um pouco no filme: na cena em que Arthur está com sua mãe no quarto assistindo o programa de Murray. A cena corta para ele no programa dizendo na plateia “eu te amo, Murray!” O apresentador pede luzes com foco em Arthur. Ele acaba contando sua história dizendo que ele quem cuida da sua mãe. Murray emocionado pede para Arthur vir até o palco e diz que “deixaria tudo isso aqui para ter um filho como você”. Eles se abraçam e Arthur chora em seu ombro num abraço fraternal. A cena corta de volta para o quarto e só então nos damos conta que era uma fantasia de Arthur em participar do programa. Dentro da fantasia dele, Murray gostaria muito de ter um filho como ele. Logo, podemos pensar que é um desejo de Arthur em ter Murray como pai. Por isso é a morte simbólica e real de Murray, uma vez que Arthur também já sabia que era adotado e que Wayne não era seu pai.

Já como Coringa em vestimentas e em nome (pede para o Murray o apresentar como Coringa) durante a entrevista confessa que foi ele quem matou os três executivos e que não se importava com isso. Inclusive gostava, para o espanto de todos assistindo. Deixa claro também que sabe que Murray o chamou apenas para torna-lo uma piada em rede nacional e expõe como nem ele, Murray, nem ninguém sabe como é viver a vida que ele vive. Então atira assinando-o. Já morto, atira mais duas ou três vezes. A morte simbólica da figura paterna que ele parece ter por muito tempo encontrado na fantasia de sua relação com Murray através da TV.

Assim, temos três períodos:

– Morte da mãe simbólica e real – vestido normalmente como Arthur
– Morte do colega de trabalho – já vestido parcialmente como O Coringa
– Morte de Murray, figura simbólica paterna – totalmente vestido como Coringa e apresentado pelo nome de Coringa, não mais como Arthur.

No caminho para a delegacia o carro sofre um acidente. O Coringa é resgatado e ao acordar vê uma multidão que o aplaude e o reconhece. Tira-o da invisibilidade, da margem social. Nesse momento ele é o centro de tudo. Do caos que tomou conta da cidade.

A cena final é ele fazendo um sorriso com o sangue que sai da sua boca. Um sinal de que agora é visceral sua identidade – é com o sangue de dentro, que estava oculto, agora está à mostra, e é com ele que o sorriso se expande. O Coringa nasceu da morte reais e simbólicas das figuras da mãe, do pai e dos relacionamentos mais próximos. Nenhuma dessas figuras foi capaz de dar suporte a ele. A mãe concentrada somente no Wayne; Murray na única oportunidade de encontro o humilhou; os colegas de trabalho o tratando como estranho e como chacota.

Warner Bros Wb GIF by Joker Movie - Find & Share on GIPHY

As danças simbólicas

Há três momentos no filme em que a música e a dança são momentos de catarse para Arthur e o Coringa.

A primeira é no banheiro, após ter matado os três executivos. Ele chega no banheiro com medo do que fez. Mas logo se entrega uma dança quase que ritualística. É a primeira sensação do gozo, do ecstase em matar.

A segunda dança é em casa após matar a mãe. Ao pintas os cabelos de verde e a maquiagem de palhaço, dança em tom de liberdade de viver sua recém nova identidade. Mata o colega de trabalho e nem se incomoda em limpar imediatamente o sangue.

A terceira dança acontece descendo a escadaria. Interessante que é uma dança escadaria abaixo. Não escadaria acima. Podemos interpretar como um símbolo do caminho de vida que ele havia decidido tomar, tendo como simbólico o acima como bem e o abaixo como mal?
Ao causar o alvoroço no metrô que resultou no espancamento dos policiais, faz novamente uma dança que se torna seu símbolo.

No final do filme, em cima do carro, com a boca sangrando e uma plateia em volta, abre os braços e ri, mas um riso não mais de ansiedade ou medo – agora um sorriso catártico. Uma nova identidade se consolidou. É capaz de ser visto por todos, coisa que até então jamais aconteceu.

Projeções pessoais

Não é preciso ter alguma transtorno psicológico para se identificar com o Coringa. O filme não fala do diagnóstico exato dele. O que sabemos são duas coisas, contudo: sua mãe tinha esquizofrenia. Sabemos que a esquizofrenia também tem base genética. As alucinações visuais que ele vivenciou com a vizinha mostram um sinal possível de que ele também sofria do mesmo transtorno. Outra coisa que podemos inferir é que ele tinha depressão.
“Eu só tenho pensamentos negativos”. Podemos pensar numa possível depressão, além da sensação de desamparo, o baixo nível de autocuidado e o isolamento.

O filme toca em várias questões que todos vivemos em algum momento com maior ou menor frequência: abandono, dificuldade em ser aceito, violências sociais, frustrações nas relações, necessidade de atingir as expectativas dos outros, tristeza, privações econômicas, necessidade de pertencer, necessidade de reconhecimento etc. Por isso, é fácil se projetar no filme em algum momento. O abandono do outro nos lembra dos nossos próprios abandonos; as violências que os outros sofrem (emocional, física, psicológica, econômica) é um lembrete das violências que nos mesmos sofremos; as frustrações nas relações dele que nos remete às nossas próprias frustrações. Enfim, tudo que nos toca no outro é sobre algo que temos dentro de nós.

Jogo de Palavras

Em seu caderno de anotações há um jogo de palavras em inglês.
“I hope my death makes more cents than my life”.
Literalmente: Espero que minha morte dê mais dinheiro que minha vida.
O jogo de palavras está no som de “cents” (centavos, dinheiro) e sense (sentido).
Aí então ficaria: “Espero que minha morte faça mais sentido do que minha vida”.

Só vi o filme uma vez, mas pelo que percebi na hora eles traduzem os dois momentos em que essa frase aparece das duas formas. Primeiro como dinheiro, depois como sentido. Dinheiro quando a câmera passa pelo caderno, e sentido quando a assistente social lê a frase.

O que seria uma morte que “dá mais dinheiro do que a vida”?
Talvez sair mais na capa dos tabloides, alguém que foi notado e cuja morte vai vender notícias por ser famoso. E uma morte que “faça mais sentido do que a vida”? Essa deixo para vocês pensarem!

E, pra finalizar, a música que ele canta ao final para a assistente social: That´s life, do Frank Sinatra. – É a vida.

Joaquin Phoenix Joker Movie GIF - Find & Share on GIPHY

Alguns trechos para verem como é simbólica:

Essa é a vida, é o que todos dizem
Você está bem em abril
Baleado em maio
Mas eu sei que mudarei esse tom
Quando eu voltar ao topo, voltar ao topo em junho

Essa é a vida, e é tão engraçada quanto possa parecer
Algumas pessoas têm prazer
Pisoteando sonhos
Mas eu não deixo, deixo que me faça mal
Porque esse velho e belo mundo continua a girar

Eu já fui um boneco, indigente, pirata
Poeta, um peão e um rei
Eu já estive acima, abaixo, sobre e fora
E eu sei uma coisa
Toda vez que eu me acho, achatado sobre minha cara
Eu me recolho meus pedaços e volto a corrida

Gostaria de ter tido tempo para analisar elementos da casa e outros, espaços, mas com uma só vez no cinema muita coisa passa despercebida. Vamos ver da próxima mais coisas!

Compartilhar: