Análise Psicológica do filme: O Quarto de Jack (2016)

Olá pessoal, tudo bem? Quem aí gosta de dramas e histórias familiares? Pois quem não viu deve ver o Quarto de Jack. Muito drama, relações familiares e muito a falar da vida e do mundo!

Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay) vivem isolados em um quarto. O único contato que ambos têm com o mundo exterior é a visita periódica do Velho Nick (Sean Bridgers), que os mantém em cativeiro. Joy faz o possível para tornar suportável a vida no local, mas não vê a hora de deixá-lo. Para tanto, elabora um plano em que, com a ajuda do filho, poderá enganar Nick e retornar à realidade.

O filme O Quarto de Jack trata de muitas questões psicológicas. Vamos a elas:

  1. Jack. O menino é criado num quarto com alguns móveis e o único contato humano que ele tem é com sua mãe e com o estuprador, que é seu pai biológico. Na psicologia entendemos que o ser humano é interacionista. Ou seja: somos produtos do ambiente e influenciamos o ambiente também.

Jack vivenciou toda a sua primeira infância (do 0 aos 6 anos). Essa é uma época em que 75% da nossa energia é voltada para o desenvolvimento neurológico. Jack foi privado dessa estimulação que é tão necessária, sem contato com outras crianças e adultos. Para compensar de alguma forma essa falta de estimulação passou a conversar em algum grau com os móveis. Dava bom dia para o guarda roupa, para a cadeira, para a mesa. De alguma forma antropomorfizou os objetos, ou seja: lhes deu qualidades humanas. Isso mostra mais uma vez que realmente somos seres Biopsicossociais.

Ou seja:

BIO: BIOLÓGICOS

PSICO: PSICOLÓGICO

SOCIAIS: INTERAÇÃO SOCIAL

A mãe de Jack tentou contar-lhe como era o mundo. Mas para ele era tudo fantasia, achava impossível tudo aquilo ser verdade. Que haviam ruas, casas, pessoas, estações do ano etc. O que não está dentro da nossa realidade costumamos duvidar da existência. Achamos que não existe.

Jack após sair do quarto teve que vivenciar várias adaptações ao ambiente novo. Luz solar, por exemplo. Os médicos recomendaram usar óculos de sol um tempo, pois seus olhos não estavam acostumados a exposição de luz solar. E ficaram atentos observando possíveis reações fisiológicas diante dos novos estímulos que Jack estava recebendo do ambiente.

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O Quarto de Jack não mostra sua vida depois na adolescência e vida adulta. Mas podemos supor que Jack teve dificuldades de interação social e de relacionamento devido à falta de estímulos na primeira infância. No filme, um ato importante dele foi desejar voltar ao quarto e despedir-se dos móveis e da vida que havia vivido até então. Ato que para a mãe dele foi muito difícil.

  1. A mãe de Jack. Ela foi raptada aos 17 anos. Violentada frequentemente desde então e engravidou aos 19 anos. Mãe de primeira viagem, sem suporte algum para aprender a lidar com a maternidade e maternagem, usou dos recursos que tinha para manter o filho e a si mesma vivos. No filme, Jack comenta sobre os dias em que “mamãe não levantava da cama e ficava dormindo”. Podemos supor que eram momentos onde uma possível depressão atingia sua mãe a deixando incapacitada de lidar com a realidade terrível em que vivia e por isso dormia como recurso de enfrentamento.

Após saírem do quarto, a mãe de Jack teve muitas dificuldades em lidar com o mundo novamente. Percebeu que todos haviam de alguma forma seguido com suas vidas. Suas amigas de escola haviam feito outras coisas. Mesmo sua mãe, já havia se divorciado de seu pai e estava casada novamente. A sensação de que ninguém se importou com ela e de abandono tomaram conta de seu coração.

Embora os pais tenham dito que se importaram sim com ela, mas que nunca a conseguiram encontrar, ela manteve a sensação de abandono.  O impacto do rapto, violências sexuais, físicas, psicológicas e emocionais, além da preocupação em manter o filho vivo a todo custo, e a sensação de uma vida, ou parte dela, roubada podem ter feito parte de tudo que ela sentiu nesse momento. No filme não sabemos como ela lidou nos anos seguintes com esse retorno à sociedade e com tudo que viveu. Certamente muita coisa interior para ela elaborar. Psicoterapia seria fundamental nesse processo.

  1. O avô de Jack. Divorciado há alguns anos ele viajou de volta somente para acolher a filha e o neto. Contudo, muito rapidamente demonstrou não aceitar o neto por ele ser filho de um estuprador. Muitos pais tem dificuldades em aceitar filhos frutos de violência sexual. Tanto pela falta de desejo em serem pais quanto pela questão da violência sexual em si. Podem associar a criança com o violentador ou com a cena de violência. O mesmo se dá com os avós que podem não aceitar e até mesmo culpabilizar seus filhos pelo estupro. São situações que trazem muito sofrimento para todos.

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  1. O estuprador. Chamado de “Velho Nick”, pois ele nunca revelou sua identidade para os outros, é o homem que raptou e abusou de Joy, mãe de Jack, e pai biológico dele. Um homem que no filme está desempregado há muito tempo e demonstra estar frustrado com a forma como vem levando sua vida. Mesmo quando demonstra afeto por Joy ou por Jack, levando presentes para ele no aniversário, ou alguma preocupação com a alimentação deles, logo depois a violenta como se fosse algo totalmente naturalizado. Demonstra traços de personalidade violenta e perversidade. Não sabemos de detalhes de sua vida, mas  a relação dele com Joy  Jack, os mantendo no quarto e sendo o único provedor que os mantém vivos de alguma forma, além do estupro constante, demonstra necessidade de controle e poder, o que pode revelar uma sensação de insegurança  e vulnerabilidade diante do mundo.

Assim, para concluir dá pra percebermos com o ambiente em que crescemos faz toda a diferença em quem nos tornamos. Não somos reféns desse ambiente, mas ele tem um papel importante na nossa formação. Um psicólogo famoso chamado Carol Rogers chamava esse ambiente de “ambiente facilitador” que permitiria as potencialidades das pessoas desabrocharem. Mas se o ambiente não for facilitador, então a pessoa pode ter dificuldades em se desenvolver como sujeito autônomo, independente e emancipado.

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E você será que tem seu próprio Quarto de Jack que vem se mantendo trancado nele?

Análise por: Dr Luiz Ricardo Friano

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