Crítica: Crimes de Família (2020)

crimes de família

Baseado em uma história real, Crimes de Família é a confirmação de que todos sabem que existe mas tenta ignorar: a desigualdade e os privilégios sociais.

Lançamento: 20 de agosto de 2020

Sinopse:

Crimes de Família acompanha Alicia (Cecilia Roth), uma mãe que se encontra desesperada para fazer com que seu filho Daniel (Benjamín Amadeo), acusado de tentar matar a ex-mulher, não seja preso. Durante o processo, Alicia acaba descobrindo algo que mudaria o rumo de sua vida para pior.

De um lado temos Alicia, uma mulher branca, rica, que vive em uma bolha social regada a yoga e chá da tarde com suas amigas. De outro lado temos Gladys, uma mulher não branca, semianalfabeta, empregada doméstica que sofre diversos tipos de abusos, é a partir daqui que a produção trabalha na desconstrução e exploração da sociedade como um todo.

Enquanto o espectador acompanha a prisão de Daniel e as manobras que sua mãe faz para salvá-lo da prisão com todos os recursos disponíveis, também é apresentada a situação da empregada doméstica Gladys, que não tem ninguém por ela e que vive um verdadeiro inferno sozinha.

É legal ver que a prisão do filho serve como o início de rompimento da bolha social de Alicia,já que o pai Ignácio, deixou de passar a mão na cabeça de Daniel a muito tempo e passou a deixar claro que o filho deveria pagar pelos crimes que cometeu. Apesar dela correr atrás para livrar o filho da prisão, Alicia passa a entender então, que a violência que ela negava ser existente na vida das mulheres ao seu redor, era mais presente e real do que nunca.

A produção não tem piedade do espectador em nenhum sentido. Ela usa e abusa da crítica social, apresenta um roteiro muito bem amarrado e que conduz o espectador as mais diversas emoções e reflexões. Ao contrário do que muitos pensam, Crimes de Família não é um filme feito para chorar, longe disso, ele tem como objetivo emocionar e fazer o espectador entender que vozes silenciadas devem ser ouvidas.

O elenco é incrível! Cecília Roth, que é uma velha conhecida dos fãs de Almodôvar, assume o papel protagonista e mais uma vez surpreende com uma atuação impecável. Ela apresenta uma mulher branca, rica, que vive em uma bolha social regada de chá e yoga com as amigas, mas que em determinado momento passa e ver que seu estilo de vida era uma ilusão. Quem chama muita atenção do espectador é Yanina Ávila, que assume o papel da empregada doméstica e consegue falar muito mesmo com o silêncio apresentado.

Em diversos momentos a produção consegue fazer com que o espectador fique revoltado com o que está vendo, principalmente quando ele se lembra que é uma história real. Além da revolta, a produção explora muito o ambiente claustrofóbico da desigualdade social – mesmo que dentro do apartamento da família. Se já antes nós já tínhamos a certeza de que é o pobre que acaba “pagando o pato”, agora isso se confirma ainda mais.

O roteiro é simples mas muito bem escrito e amarrado, o que desperta ainda mais o interesse do espectador. De toda maneira ele não é um filme feito para todos, ele é um suspense dramático argentino baseado em uma história real, então ele pode não agradar aos que estão acostumados com produções norte-americanas e que fazem de tudo para humanizar que não deve ser humanizado.

Por fim, Crimes de Família é um filme que deve ser visto e indicado a todas as pessoas que gostam de um bom suspense dramático, e principalmente, que explora a realidade de tantas mulheres ao redor do mundo que são abusadas e muitas das vezes vivem caladas. Um soco no estômago.

Galeria:

Trailer: